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Martin Gross Gross từ El Alto, Ituango, Antioquia, Colombia từ El Alto, Ituango, Antioquia, Colombia

Người đọc Martin Gross Gross từ El Alto, Ituango, Antioquia, Colombia

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Ver aqui: http://missingmywonderland.blogspot.c... Eça de Queiroz propôs-se a escrever uma série de romances em que espelhasse os podres da sociedade portuguesa, todos de acordo com a corrente literária que adoptou: o realismo(1). Nasceu então O Primo Basílio - Um Episódio Doméstico, depois de um retrato bem tirado à província em O Crime do Padre Amaro. Luísa é a típica mulher da média burguesia lisboeta. Sem uma ocupação que a preencha, a sua mente é um terreno fértil para devaneios românticos, incitados pelas novelas e pela música melodramática que consome, tal como pela educação que teve e que a deixou demasiado impressionável. Sozinha em casa durante meses, já que o seu marido, Jorge, teve de se deslocar ao Alentejo, com o ressurgimento na sua vida do primo Basílio, a grande paixão da sua juventude, num momento em que se encontra tão desamparada, surge nela a vontade de provar o fruto proibido... "Imaginava-o só [a Basílio], no seu quarto de hotel, infeliz e pálido; e daqui, pelos declives da sensibilidade, passava à recordação da sua pessoa, da sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memória demorava-se naquelas lembranças com uma sensação de felicidade, como a mão se esquece acariciando a plumagem doce de um pássaro raro. Sacudia a cabeça com impaciência, como se aquelas imaginações fossem os ferrões de insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as ideias más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era! - E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida indignação contra Jorge, contra Basílio, contra os sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e sofrer. Que a não secassem, santo Deus!". - página 122 Por um lado, Basílio encontra um antegozo nos jogos de sedução, como conquistador nato que é, e um verdadeiro gozo, maravilhado, quando toma a presa, com a qual rapidamente se enfastia e abandona. Luísa, por sua vez, é levada pelos galanteios e pela riqueza de Basílio conseguida no Brasil, e sente-se de tal forma lisonjeada pela sua atenção que, num acesso de futilidade, se chega a ver superior ao próprio marido e ao seu círculo de amigos. Porém, o caso muda de figura quando é descoberto pela criada e esta passa a chantagear, sem tréguas, a patroa. Luísa vê-se então a mãos com uma situação para a qual não estava minimamente preparada, quer por causa dos remorsos e do receio de se ver exposta perante a sociedade, quer por chegar à conclusão que nem tão pouco amava Basílio. A mensagem e a crítica entrelaçam-se, como sempre, nos romances de Eça e este não é excepção. O adultério é o pretexto utilizado para criticar a burguesia lisboeta em toda a sua dimensão. Desde a condição e educação da mulher, aos políticos, figurinos e ambientes da sociedade burguesa, tudo é devidamente escrutinado pela sua subtil, mas mordaz pena. E não foram poucas as vezes que me ri com algumas das situações criadas. Assim, temos um leque de personagens secundárias que retratam vários dos tipos existentes na época: a criada Juliana, feia e de uma magreza que roça a secura, vê nas várias patroas que teve e agora em Luísa, a personificação do carrasco que tem feito da sua vida um inferno repleto de pobreza, o que a tornou uma pessoa profundamente má, invejosa e rancorosa; a cozinheira Joana, rapariga simples e de formas roliças, que aproveita as saídas dos patrões para namorar com o sapateiro. No grupo de amigos de Luísa e Jorge temos a D. Felicidade, amiga mais velha de Luísa, muito religiosa e sempre acossada por diversos achaques; o conselheiro Acácio, figura política em destaque, formal e bem tratante, é o moderador nas conversas e, alvo do amor da D. Felicidade, revela-se no final da história; o médico Julião, idealista frustrado, que espera e desespera por um cargo, o qual não quer conseguir por cunhas; e Sebastião, amigo de infância de Jorge, rico ocioso e sempre prestável. Sobram ainda Leopoldina, também amiga de Luísa, a mal casada que não esconde os seus casos extraconjugais; e os próprios vizinhos de Luísa, sempre à espreita de uma pitada da sua vida para apimentarem as suas próprias vidas. A linguagem é cuidada e/ou apropriada para cada tipo de personagem, como não poderia deixar de ser, mas em nenhum dos livros que já li do autor se adensa tanto como em Os Maias. Em O Primo Basílio adensa-se, mas de outra forma, pois cria-se uma atmosfera psicológica tão opressiva que quase tudo, desde as falas das personagens às descrições, parece anunciar o fim que se aproxima. Já o público-alvo é, naturalmente, todo e qualquer contemporâneo do autor, especialmente a burguesia e as mulheres ociosas e consumidoras dos "folhetins". Naturalmente que ele foi beber, e muito, em Madame Bovary de Gustave Flaubert (2). Contudo, isso não invalida em nada o facto de existirem, em O Primo Basílio e em toda a obra de Eça, padrões intrinsecamente portugueses que se repetem ainda hoje - não fosse esta obra um clássico da literatura portuguesa. Do mesmo autor já tinha lido O Mistério da Estrada de Sintra (1870), A Cidade e as Serras (1901, póstumo), Os Maias (1888), O Crime do Padre Amaro (1875), O Mandarim (1880) e, por último, O Primo Basílio (1878). Para mim, sem sombra de dúvida, o melhor romance de Eça, e um dos meus preferidos de sempre, é Os Maias. Desde a «questão existencial» de Carlos, à arquitectura monumental do romance, à história e à crítica, tudo revela uma mestria invejável. Agora, no que toca a'O Primo Basílio, senti algo diferente: uma empatia genuína por Luísa. Afinal de contas, toda a sua personalidade, e consequente vulnerabilidade, foram fruto de uma educação e de uma sociedade que apelavam ao sentimentalismo barato e que em nada a prepararam para a vida real. Para rematar, o final, ao contrário de algumas críticas que li entretanto, não me desapontou. Nenhum melhor para mostrar como o «ódio» de Eça de Queiroz não se dirige às personagens em si, uma vez que são mero produto de uma fábrica defeituosa, mas sim a essa mesma fábrica: a sociedade. E mais não posso dizer, não vão as minhas palavras desvendá-lo. Classificação: 5* (Adorei! Como quase tudo o que li deste escritor.) (1) Para os mais distraídos, o realismo do século XIX, do qual os seus paladinos em Portugal são Antero de Quental na poesia, e Eça de Queiroz na prosa - e isto só no que se refere à literatura -, medeia entre o romantismo de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, e o naturalismo de Cesário Verde, e defende que a literatura deve servir como forma de exposição e reflexão da sociedade em que se vive, com o objectivo de a mudar para melhor, naturalmente. (2) Se ainda não leram o livro, basta que consultem uma sinopse para comprovarem a minha afirmação.